“Trumptização” e o fim da democracia


Hillary perdeu, e agora? O que é certo é que já não será “business as usual”. É aqui que reside um dos problemas que provocou este resultado. O ‘business’ é a política e esta reação do eleitorado americano surge porque a política tem olhado apenas para o ‘business’. O ‘usual’ deixou de ser sustentável. O facto de Trump ter ganho as eleições numa democracia tão madura é um sinal de que o eleitorado atingiu o seu limite de tolerância em relação aos políticos. Também revela que os meios de comunicação são um quarto poder com cada vez menos influência.

Como sabemos, Trump fez a sua campanha contra os políticos, contra o poder financeiro, contra tudo e todos – menos os que irão “make America great again” –, incluindo os meios de comunicação. Estes, na sua maior parte, também fizeram a sua campanha contra Trump. Tendo esquecido o código deontológico, as notícias vinham frequentemente com um juízo de valor. É muito difícil ficar indiferente perante algumas das barbaridades proferidas pelo candidato republicano, mas esta é a função do jornalista: ser imparcial.

Neste momento, com o mundo contra Trump, não se refletiu sobre esta questão que, a médio-longo prazo, poderá ter um impacto muito negativo. Os dois efeitos possíveis são contrários, mas igualmente nocivos. Por um lado, a consequência poderá ser uma opinião pública pouco crítica, influenciada pelo modo como o transmissor da notícia a comunica, não apenas pelo conteúdo. Por outro lado, esta abordagem jornalística poderá ajudar a distanciar a opinião pública do jornalismo, pois o jornalismo parcial, regra geral, não inspira confiança. Agora podemos estar todos de acordo com os comentários desfavoráveis a Trump, mas estabelece-se uma tendência que não abona em favor do jornalismo, nem da opinião pública.

No entanto, a opinião pública que apoia Trump permaneceu, na sua maior parte, indiferente às manchetes com as declarações xenófobas, sexistas e elitistas do candidato que apoiaram, incondicionalmente. Este eleitorado está disposto a acreditar e a seguir tudo o que Trump defende. Mesmo que ele mude de ideias. Não interessa a verdade, as estatísticas, os ‘opinion makers’, ou as notícias. Esta aceitação cega é muito perigosa, como sabemos.

Por outro lado, a “Trumptização” das eleições foi muito promovida pelos próprios meios de comunicação. Se a intenção era desvendar a loucura de algumas políticas defendidas por Trump, apenas concretizaram o seu domínio do “tempo de antena”. Esta relação com o espaço mediático foi conduzida por uma lógica de cobertura mercantil, uma lógica que atende apenas às audiências.

É certo que é mais interessante ouvir Trump falar, pois é como se fôssemos assistir a um espetáculo em que se fica cada vez mais incrédulo (e assustado) com o que se está a ouvir. Mas o efeito está à vista. Não se trata apenas de um processo eleitoral mais virado para o espetáculo do que para a informação, que falou pouco de estratégias para o país ou de políticas concretas. Estamos perante algo ainda mais assustador. A política do espetáculo, conduzida pelo populismo/extremismo mais básico, já não está em minoria (como tínhamos visto com o Brexit); uma retórica que incitou milícias fortemente armadas a “vigiar” as mesas de voto, algumas das quais também se disponibilizaram para avançar “democraticamente” com uma luta armada, caso Trump tivesse perdido as eleições que tinha afirmado serem corruptas. Por outras palavras, uma guerra civil incitada durante a campanha.

Com o tempo, este fenómeno poderá ser agravado. Há eleições muito importantes na Europa em 2017 e os populismos já se sentem no Velho Continente, provocados pelo mesmo “politics as usual”, pelos mesmos medos em relação à imigração, a mesma desconfiança em relação aos políticos. E se, já hoje, começamos a ver a predisposição de grupos armados para saírem à rua, numa das democracias mais consolidadas do mundo, o país que lidera a NATO, o que poderemos esperar para daqui a quatro anos?

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Júlio Carvalho

Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais, pela Universidade Nova de Lisboa, pós-graduado em Gestão Pública, pelo INA, é mestre em Relações Internacionais e Diplomacia, pelo Colégio de Europa, em Bruges (Bélgica). Desenvolveu toda a sua carreira na área diplomática corporativa. Trabalhou projetos de lobbying e advocacy em Bruxelas e Viena e desenvolveu vários projetos de corporate & public affairs em Londres. Atualmente, é responsável por projetos de comunicação corporativa, diplomacia económica e public affairs na Atrevia.

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